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20 mar, 2017 // por Dienifer
Uma breve reflexão do que é ter e ser um coração

Meu coração. O que tem? O que é? O que faz? Meu coração.

Esse órgão tão importante na medicina e tão falado nas artes. Tão complexo, tão falho, tão único. Cada um sabe dos prazeres e dores que carrega com si. Cada um sabe, de forma incerta, a certeza que é simplesmente ser o que se é. Mas o que somos? Se uma hora somos maiores que um planeta e, de repente, já somos menores que um grão. Somos concreto, somos fluidos, somos quem somos? Só sei que somos corações.

Dentro do meu peito bate aquele que já foi gente, que já foi bicho, que já foi móvel, lugar, momento. Bate aqui dentro aquilo que já foi tocado e hoje nem existe mais em plano físico. O toque. Nada se sente, se muda ou se torna se não houver O toque. Toque de alma, de carne, de choque, de realidade, sonho, talvez. E, subitamente, entre um batimento cardíaco e outro, já se criou uma ação dentro de mim. Às vezes, já se criou um novo eu e eu, que sou tão eu, nem vi.

O que é o meu coração? Talvez seja o monge quieto que em uma manhã colorida medita, observa e indaga sobre o que é viver. Viver e ver, com a alma. Meu coração é bagunça em quarto de criança. É cidade grande em clima de natal. Meu pulsar é a vida salva por um herói de chinelo e sem capa. Meu coração é o mendigo mais faminto da rua mais miserável que mesmo sem quase nada oferece o pouco que tem pra quem mais precisar, pois sabe que é dividindo que se ganha. Meu coração é artéria prestes a entupir devido às tantas e tantas porcarias que ingeri em dias de celebração. Meu coração é o lugar que procuro estar sem perceber que já estou, que já tenho, que já sou. Meu coração é carta escrita a mão numa era de computadores.Meu coração é cachorro dado e gato desconfiado. Meu coração é o silêncio de quem não precisa falar nada pra que se conte muito. Meu coração é o olhar despido seguido de um sorriso tímido. Meu coração é  garoto medroso obrigado a virar homem indestrutível. Meu coração é a menina desiludida. Meu coração é o calor da euforia, é o choro de alegria. Meu coração é silêncio em alto mar. Meu coração é cheiro de terra molhada, é receita de vó que deu errada. Meu coração é a ausência de segurança, é o pulo no escuro, a queda livre. Meu coração é fênix, ora vira pó, ora vira vida, ora voa. Meu coração é consciência embora os céticos insistam em dizer que é emoção. E desde quando emoção deixou de ser a prova da razão?

Faço de mim casa de repouso. Pessoas entram, pessoas saem e as mais importantes me levam com elas, permanecem em mim. Sou constante, logo, preciso de recarga. Ração pra alma e, o que melhor para isso senão o raro e verdadeiro? Eu busco pelo copo d’água no deserto do Saara. Eu observo os movimentos das pessoas na rua à procura de gentilezas invisíveis perante a correria do cotidiano. Eu fecho os olhos quando a primeira, ou última, gota de chuva cai sob minha cabeça e atravessa meu corpo numa corrente de energia. Paro, sinto. Procuro ser a melhor versão do ser humano. Eu erro. Recomeço e tento de novo. Erro. Recomeço. Me alimento por sentimentos, almejando momentos, colecionando o tempo líquido que escorre das minhas mãos. Bebo amores, farejo medos, invisto em desejos, quebro a cara com decepções.

Coração. Cor-ação. Ação de vida. Ações minhas, impactadas por outros. Cor primária. Cor de rápida localização. Então por que fica tão difícil enxergar o outro? Falta de empatia? De atração? De… tempo?

Egoísmo? Individualismo?

Falta de autoconhecimento.

Falta de evolução.

Falta de coração.

Sem coração não há vida, e não estou falando de forma científica.

créditos | ilustração: Leonilson 


 

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